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09 / 09 / 2011 Desenhe para elas–Crianças adotadas que se travestDesenhe para elas–Crianças adotadas que se travest


Desenhe para elas – Sobre crianças adotadas que se travestem da mãe biológica1
Marcia Regina Porto Ferreira2
ntação

A clínica psicanalítica com crianças tem se provado um vasto campo de pesquisa teórico-clínico. Mais particularmente, junto a um grupo de psicanalistas, no Grupo Acesso – Estudos, Intervenções e Pesquisa sobre Adoção da Clínica Psicológica do Instituto Sedes Sapientiae, do qual sou uma das coordenadoras, venho investigando há mais de quinze anos o processo de constituição subjetiva de crianças que foram separadas de seu primeiro objeto amoroso e de seu entorno. Se as subjetividades se constituem no encontro com o outro, que saídas encontra o incipiente psiquismo infantil quando esse outro primordial é concretamente perdido para sempre? O princípio psicanalítico, que considera o caso a caso como premissa para se compreender as subjetividades, certamente não será descuidado, alertando para que esse ensaio não seja tomado na dimensão de comprometedoras generalizações; ou seja, não é de tipologias que nos interessa tratar, mas de indícios de particulares processos em constituição na infância, para os quais poderemos afinar nossa escuta clínica. Grandemente auxiliada pelas ideias de Silvia Bleichmar, a quem gostaria de mais uma vez prestar uma homenagem, entendo que o psiquismo da criança não é pré-determinado, nem determinado linearmente ao modo de causa e efeito seja pelos acontecimentos vividos, seja pelos desejos consciente e inconscientemente enviados a ela. Essa é a grande complexidade do existir humano. Somente num a posteori poderemos verificar o que e como o infantil sujeito metabolizou singularmente aquilo que viveu e recebeu do outro humano.

Crianças que nos primeiríssimos tempos de vida tiveram uma brusca e definitiva ruptura da relação com seu objeto primordial intrigaram-me a ponto de me obrigar a persistentemente interrogar a teoria.

 

_____________________________

1 Trabalho apresentado no III Congresso Internacional de Psicopatologia Fundamental e IX Congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental – Niterói, 2008.

2 Psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUCSP, coordenadora do Departamento de Psicanálise da Criança do Instituto Sedes Sapientiae, Co-coordenadora do Grupo Acesso – Estudos, Intervenções e Pesquisa sobre Adoção da Clínica Psicológica do Instituto Sedes Sapientiae.

 

Dentre outras, observo que alguns meninos adotados e alguns meninos institucionalizados em abrigos que atendi ou supervisionei apresentavam um particular fascínio por usar objetos femininos, tais como vestidos, perucas e bonecas, a ponto de alguns anunciarem explicitamente o desejo de ser uma menina. Esses casos suscitaram mais especificamente a interrogação sobre os processos de identificação em andamento nessas crianças. Tema espinhoso, humildemente declarado por Freud (1921), como "processos insuficientemente conhecidos e difíceis de descrever", as identificações nos instigam interrogações para jamais serem esgotadas.

No histórico dessas crianças, o começo de vida muito difícil foi marcado não somente por um abandono da sua mãe das origens, como pelo próprio abrigo que os acolheu. Era muito evidente a ausência ou a muito insuficiente presença de um adulto significativo que, ao mesmo tempo em que as libidinizassem as ajudassem a traduzir o mundo e suas vivências. Mais uma vez Bleichmar veio me auxiliar no entendimento do processo de constituição subjetiva de certas crianças que viveram tempos difíceis no início da vida, quando em seu último livro, Paradojas de la sexualidad masculina (2006), nos brinda com um capítulo valioso, A la búsqueda de una envoltura materna:

 

Essa necessidade de pele materna, este desejo de um tegumento que circule entre a mãe e seu próprio corpo, se relaciona com um travestismo que podemos chamar de "pré-castratório".... É a essa falta que deixa o menino submetido à angústia mais profunda, o que a psicanálise denominou com os conceitos de de-relição ou desajuda, e que Lacan definiu com o conceito de des-ser (p. 198 e 199)

 

Entendo que Bleichmar está se referindo a arranjos identificatórios que estão aquém do recalcamento porque são soluções da ordem das clivagens. Um bebê que esteve tão abandonado a suas próprias pulsões encontra saídas muito precárias para suas vivências. Algumas crianças ficam, então, a meio caminho da construção de representações que se constituíram mais como apresentações do objeto primordial. Travestindo-se alucinatoriamente de uma envoltura materna, defensivamente livravam-se do risco de desintegração egoica. Seria um modo restitutivo de angústias de aniquilamento. Perseveram numa forma muito precária de evitamento de angústia. Entendo, portanto, serem persistentes arranjos pulsionais da ordem da incorporação do objeto-mãe como estratégia evitativa às vivências de "vazio de si". Ao invés de um processo longo e parcial de introjeção do objeto, o que se apresenta é uma incorporação do objeto dentro de si. Da ordem do ser e não do ter internamente aquilo que deveria estar desde sempre perdido, fica dessa forma eternamente vivificado, num processo canibalístico, devorador, controlado desde dentro do próprio eu, ou melhor, de um eu ideal assim engrandecido. Ou seja, algo do que Freud nos propõe em seu artigo Luto e Melancolia (1917). Mas sobre esse tema discutirei mais adiante.

Muito panoramicamente, poderia citar um caso supervisionado a Claudia Murta (a quem agradeço a autorização desta minha comunicação), relativo a uma menina que apresentava o predomínio de processos identificatórios ao modo da incorporação.

Gabriela de dez anos de idade é trazida a atendimento psicoterápico pela coordenadora do abrigo onde estava acolhida desde seus quatro meses de idade. A queixa colocada era a de uma menina inacessível, muito fechada, recolhida em si mesma, arredia ao contato com as demais crianças institucionalizadas e com os educadores. Boa aluna, dando notícias de um funcionamento intelectual coerente com sua idade, recusava-se manifesta e enfaticamente ao estabelecimento de quaisquer vínculos amorosos. Sua história era a seguinte: Por medida judicial, Gabriela foi destinada ao abrigamento, depois de ter permanecido seus primeiros quatro meses de idade na prisão, onde se encontrava sua mãe, Antonia. Condenada por muitos anos de reclusão, com alguns e breves intervalos de liberdade quando reincidia nos delitos relacionados ao tráfico de drogas, Antonia era referida pelos cuidadores do abrigo de Gabriela como uma poderosíssima líder. Sem jamais ter renunciado ao poder familiar, que permitiria que Gabriela fosse adotada por uma família substituta, tampouco se organizava em tempos de liberdade para reaver sua filha. Antonia também se recusava a dar quaisquer informes sobre a identidade do pai ou demais parentes que pudessem se encarregar dos cuidados de sua filha. Gabriela muito esporadicamente era levada à presença de sua mãe pelos responsáveis do abrigo. A cena descrita nessas visitas era impactante: enquanto a mãe efusiva e ruidosamente mostrava sua filha às companheiras de cela, Gabriela permanecia muda, olhos baixos, visivelmente assustada. Acredita a coordenadora do abrigo que Antonia se valia de estratégias e manobras várias, que impediam o poder judiciário de destituí-la do direito à guarda de sua filha e a colocasse à disposição à adoção. Uma delas foi quando o poder judiciário decreta o impedimento dessas visitas, com vistas à destituição do poder familiar e surge uma "madrinha", antiga guarda penitenciária, supostamente enviada por Antonia, requerendo a guarda de Gabriela. Por seu lado, Gabriela recusava-se também a ser levada do abrigo por essa mulher. Após alguns dias de convivência com a "madrinha" e seus familiares, Gabriela pede para ser "devolvida" ao abrigo. Há tempos sem notícias ou visitas à sua mãe, Gabriela permanecia trancada, presa em si mesma.

Na transferência com sua analista, Gabriela por muito tempo se portou da forma descrita pelos seus cuidadores. Testando em muito a disposição de Claudia para escutá-la e acolhê-la, ferrenhos ataques a ela eram dirigidos. Não nos faltaram vários entendimentos sobre essa forma de se expressar de Gabriela, nem nos escapou a pergunta sobre a forma como Gabriela parecia ter encarnado, se travestido de sua mãe, obstaculizando a introjeção de outros objetos amorosos para composição de seu eu.

Mais recentemente as ideias defendidas pelo casal Nicolas Abraham e Maria Torok me despertaram interesse para continuar tecendo considerações sobre o processo de identificação em andamento em alguns meninos e meninas que foram adotados ou continuavam nos abrigamentos mantendo algo diferente da reminiscencia de seus originais objetos de amor: uma corporificação do objeto-mãe perdido.

Abraham e Torok (1987), devotos às contribuições de Férenczi e atravessados pela convivência e ideias de Anzieu Didier, Derrida, Françoise Dolto, René Major, Conrad Stain entre outros, nos presenteiam com um conceito bastante interessante: a cripta. A cripta "designa a instalação, no interior do psiquismo de um sujeito, de uma nova configuração psíquica representada pelo enterro ou pela conservação de uma experiência indizível" (Antunes, 2003, p.15). A cripta é edificada em decorrência da ausência de representação, de simbolização, de figuração do vivido. Esse sujeito possuído pelo objeto de amor encriptado, remete "ao problema da clivagem do sujeito como defesa intermediária entre uma defesa neurótica e uma defesa psicótica" (Michaud, 1994). Intimamente relacionado à cripta, o conceito de incorporação do objeto exige, segundo os autores, ser muito claramente diferenciado do conceito de introjeção do objeto.

A introjeção seria um processo progressivo da inclusão do objeto e o conjunto das pulsões e de suas vicissitudes no ego que resulta numa relação com um objeto interno que passa a ser um mediador para o Inconsciente. Estendendo ao mundo exterior os interesses primitivamente auto-eróticos, é um alargamento, um enriquecimento egoico. "Operando num vai-e-vem ‘entre o narcísico e o objetal’, entre o auto e o heteroerotismo, ela transforma as incitações pulsionais em desejos e fantasias de desejo e, consequentemente, torna-os aptos a receber um nome e cidadania e a se abrir no jogo objetal" (Abraham e Torok, 1987, p.222). O objeto é introjetado pela promessa de enriquecimento do eu. "A libido que tinha investido o objeto acaba por ser recuperada pelo Ego e – de acordo com a descrição freudiana – estará novamente disponível para se fixar em outros objetos necessários à economia libidinal" (ib. ps. 225-226).

Já a incorporação, que é o conceito que mais me interessa para esse trabalho, é um mecanismo compensatório de defesa, de caráter imediato e mágico, que supõe a perda efetiva de um objeto e se constitui num obstáculo à introjeção. Adepta ao princípio do prazer, faz uso de modos de realizações alucinatórias de desejos, recusando-se a considerar os indícios impostos pela realidade. Diferentemente da introjeção que interrompe a dependência objetal, a incorporação cria ou mantém essa dependência imaginariamente. Se a introjeção enriquece o eu, a incorporação o empobrece, desbancado que fica pelo engrandecimento do objeto incorporado.

Penso que, além destas perspectivas metapsicológicas, podemos considerar as tramas imaginárias e simbólicas frequentemente tecidas pelas crianças adotadas e por toda nossa cultura ocidental, sobre as mulheres que entregam ou abandonam seu filho. Todos os que de alguma forma trabalham com adoção e institucionalização de crianças se deparam com a apresentação do sinistro, do estranhamente familiar, o unheimlich freudiano, que essas mães imaginariamente representam.

A fantasia da mãe das origens, para essas crianças, funciona como o Romance Familiar freudiano ao revés. Se no encontro com a família adotiva e demais adultos as insuficiências e insatisfações são acessíveis e abundantes, à mãe das origens é consagrado um lugar de mito inabalável. Autora de um ato inominável, irrepresentável, do "hediondo" crime do desamparo radical, no imaginário de várias crianças que atendi ou supervisionei, a mãe das origens é um sujeito incastrável. Para elas, portanto, é uma mãe fascinante, onipotente, objeto de uma enaltecedora idealização tanto quanto de um imensurável horror.

A meu ver, a complexidade dessa clínica se mostra na intensa resistência para renunciar ao modo de incorporação do objeto primordial, seja pelo temor de deflagrar angústias automáticas, muito arcaicas, que disparam vivências de des-ser, de aniquilamento, seja pelo temor de deflagrar angústias-sinal pela ameaça de perda de uma gozoza onipotência. Relativizarem as fantasias, castrar simbolicamente essa mãe seria, para essas crianças, ter que enfrentar o temeroso processo de transformação do vazio em falta, mas também serem colocadas na condição de sujeitos castrados, faltantes, incompletos, desejantes – desamparados de uma ilusão totalizadora – meros sujeitos humanos.

Para ultrapassar essa identificação endocríptica e caminhar no sentido da introjeção, transformando o objeto vivido no corpo próprio em representação, várias estratégias clínicas foram acessadas. Em momentos oportunos da análise se provou como valioso recurso o analista desenhar para essas crianças uma mãe das origens. Ao modo das simbolizações de transição proposto por Bleichmar, implantes simbólicos podem ser ofertados pelo analista com o intuito de magnetizar posteriores associações dos pacientezinhos. Aquilo que é vivido corporalmente passa a ser externo, mirado, falado, criado. Dar figurabilidade ao que se mostra irrepresentável, seria uma busca por transcrever o que foi inscrito sem uma tradução possível.

...tenho constatado que as imagens são valiosíssimas ferramentas a serem acionadas. Inspirada em algo do que propõem o casal Botella (2002) e Radmila Zygouris (1995), tem sido de imensurável ajuda a elaboração de desenhos realizados pelo analista, na direção de uma possível figurabilidade diante do irrepresentável. O desenho, como uma forma de representação não somente simbólica, mas fantasmática, alcança a força de impacto de uma percepção. Dá concretos contornos ao impensável. Associados à construção dos contos e mitos, criados para essa função a partir de signos de percepção e fragmentos da história, constato que a oferta por parte do analista de desenhos que ilustrem uma possível articulação com o estado de desamparo e de pânico vividos e continuamente revividos, promove exitosamente a possibilidade de se aceder ao pensamento. No "ver para crer", a imagem através dos desenhos favorece o despertar da própria condição de sujeito. A proposta é a de auxiliarmos a criança a fazer uma renúncia, uma ultrapassagem da satisfação alucinatória para poder aceder ao investimento no objeto e, com isso, transformar essa angústia automática presente nas compulsões em angústia sinal, própria do recalcamento (Ferreira, 2011, p.116).

 

 

Referências Bibliográficas 

ABRAHAM, Nicolas e TOROK, Maria (1987). A casca e o núcleo. São Paulo: Editora Escuta.

ANTUNES, Suzana Pons (2003). Os caminhos do trauma em Nicolas Abraham e Maria Torok. São Paulo: Escuta.

BLEICHMAR, Silvia (1993). Nas origens do sujeito psíquico. Porto Alegre: Artes Médicas.

_________. (1994). A fundação do Inconsciente - destinos de pulsão, destinos do sujeito. Porto Alegre: Artes Médicas.

_________. (1999). Clínica psicoanalítica y neogénesis. Buenos Aires: Amorrortu Editores.

_________. (2002). Las formas de la realidad. Buenos Aires: Revista Topía. Año XII. no. 35.

_________. Simbolizaciones de transición – una clinica abierta a lo real. Vinculado pela Internet pelo site http://www.apdeba.org/frames/02cient/01aten.htm.

__________. (2006) Paradojas de la sexualidad masculina. Buenos Aires: Paidós Edicciones.

BOTELLA, César e BOTELLA, Sara, (2002). Irrepresentável: mais além da representação. Porto Alegre:Editora Criação Humana Ltda.

FERREIRA, Marcia Porto Ferreira (2011). Traumas não elaboráveis – clínica psicanalítica com crianças. São Paulo: Zagodoni Editora.

MANNONI, Maud (org.) (1994). As identificações na clínica e na teoria psicanalítica. Rio de Janeiro: Relume-Dumará

MICHAUD, Ginette (1994). "À guisa de abertura". In: MANNONI, Maud (org.). As identificações na clínica e na teoria psicanalítica. Rio de Janeiro: Relume-Dumará.

OURY, Jean (1994). "Sobre a identificação". In: MANNONI, Maud (org.). As identificações na clínica e na teoria psicanalítica. Rio de Janeiro: Relume-Dumará.

SIGMUND, Freud. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora.

_________. (1900) A interpretação de sonhos. Volume V.

_________. (1917) Luto e melancolia. Volume XVIII.

_________. (1919) O Estranho. Volume XVII.

_________. (1921) Psicologia das massas e análise do eu. Volume XIX.

_________. (1926 [1925]) Inibições, sintomas e ansiedade. Volume XX.

ZYGOURIS, Radmila (1995). Ah! As belas lições. São Paulo: Escuta.

 

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