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18 / 01 / 2013 Leonardo da Vinci...


Leonardo da Vinci: Il sole non si move, creatività è movimento*
Márcia Zart**
entação

Em 1451, faleceu o chefe da família nobre Vanni, que deixou de herança para Piero Da Vinci, algumas de suas propriedades e uma de suas servas camponesas – Caterina. Esta ficou grávida de Piero e, no dia 15 de março de 1452, nasceu Leonardo Da Vinci. Piero permitiu que Caterina, grávida, ficasse morando em uma casa no alto de uma colina, lugar que permitia uma visão ampla do horizonte, podendo lançar o olhar sobre imensa perspectiva. Foi neste ambiente rústico e distante da cidade – com uma paisagem majestosa que proporcionava certa segurança e, ao mesmo tempo, certa liberdade, considerando a posição geográfica – que Leonardo viveu com sua mãe até aproximadamente os seus três primeiros anos de vida.

A sensação de liberdade em uma paragem singular deve ter propiciado que a imaginação de Leonardo brotasse, recriando a natureza, fazendo-o acreditar que poderia ter o total domínio sobre aquela condição. Esta e as diferentes situações vividas durante sua infância, na zona rural de Toscana, exerceram uma importante influência em sua personalidade e em seu desenvolvimento intelectual. Após este período, Leonardo foi morar na casa de seu pai, com a jovem madrasta Monna Albiera-segundo casamento de Piero. Esta não podia ter filhos e aceitou o filho bastardo de seu marido, cuidando dele com muito carinho.

Após o terceiro casamento de Piero, Leonardo foi morar com um jovem tio paterno que o estimulou a ter respeito pela vida, a desenvolver a curiosidade sem limites e a ter a paciência necessária na observação íntima da natureza. Este tio parece ter acompanhado e orientado o sobrinho, mas entendemos que o suporte financeiro tenha sempre sido do próprio pai. Da mesma forma, quando Leonardo ainda vivia com sua mãe na casa da Colina, ela o cuidou suprindo todas as necessidades, mas o pai garantiu o conforto e as necessidades para seu bem estar, apoiando com recursos monetários. Aos 11 anos, Leonardo era uma criança com talento reconhecido. Ele foi levado a frequentar ambientes em que poderia ter uma formação com qualidade, como poucos recebiam naquele tempo, além de capacitá-lo, desenvolver sua criatividade e a criação de novos inventos. A partir da convivência com artistas na Oficina do mestre Verocchio, é possível que Leonardo tenha aprendido inúmeras habilidades artísticas, técnicas, bem como tido ideias novas e fascinantes.

No século XV, a Bottega de Florença era um ambiente de discussões vibrantes sobre as novidades que chegavam constantemente. Neste espaço, tocava-se música à noite. Os amigos do mestre Verocchio e colegas artistas frequentavam o local para trocar planos, novos esboços e técnicas. Escritores viajantes, filósofos e outros pensadores visitavam este recinto quando passavam pela cidade. Os principais artistas eram seduzidos para a Bottega, como Botticelli, Perugino e Ghirlandaio. Eles chegavam neste espaço quando já eram mestres consumados e, ainda assim, queriam aprender novas técnicas e discutir ideias inovadoras.

Neste local – que reunia um somatório ímpar de uma aglomeração sintetizada de arte, tecnologia e ciência – Leonardo encontrou sua mais brilhante expressão na obra amadurecida do desenvolvimento artístico e intelectual. O sistema usado para trabalhar e toda a sua aplicação da arte e da ciência foram moldados de modo significativo por essa longa convivência no recinto de atmosfera cultural desta oficina. Esta foi marcante na aplicação de sua habilidade artística, na qual Leonardo adquiriu um hábito que foi essencial e lhe acompanhou em sua trajetória. Ele agregou à sua vida um livro de anotações no qual eram registradas diariamente instruções técnicas ou procedimentos, reflexões pessoais na busca de soluções de enigmas, rabiscos, desenhos e diagramas de suas ideias. Nele descrevia o que considerava importante, esboços e projetos de suas obras de arte e seus inventos científicos, além de seus pensamentos e suas emoções. Leonardo deixou à humanidade um legado ímpar, que é o prazer de conhecer intimamente o processo criativo e emocional deste gênio.

Presumimos que o caderno de anotações de Leonardo tenha sido seu objeto transicional (Winnicott, 1975), que o manteve de certa forma ligado às diversas pessoas e aos lugares que viveu. Percebemos que este objeto fazia uma ligação com seus pensamentos diversos.

Uma mente curiosa e criativa fez de Leonardo um mestre pintor aos 20 anos, estabelecendo-o como independente aos 25 anos. Percebemos que, desde o início, Da Vinci mostrou características próprias em suas pinturas, marcando, assim, um estilo peculiar. No plano de fundo de suas telas, vemos colinas amplas, românticas, penhascos rochosos e água fluindo de uma nascente ao longe por todo o caminho até o primeiro plano. As quedas d’água e turbulências fascinaram Leonardo no decorrer de toda sua vida.

Sabemos que Leonardo não estudou em bancos escolares formais. Portanto, pouco sabia do latim ou de seu próprio vocabulário toscano nativo. Ele não possuía o vocabulário abstrato necessário para formular suas teorias de modo preciso e elegante. No entanto, isto não lhe impediu de tentar ser aceito como intelectual em uma cultura em estreito contato com as principais universidades, uma cultura dominada pela palavra escrita, na qual se usava quase exclusivamente o latim. Com seu jeito metódico, constante e intransigente, ele enfrentou essa lacuna de conhecimento aparentemente insuperável. Decidido e determinado, iniciou um extenso programa autodidático com uma tentativa sistemática de ampliar seu vocabulário. Esta era uma fragilidade de Leonardo, que ficava em desvantagem por sua criação. Contudo, ele não deixou que isto o limitasse.

Sua aquisição de conhecimento aconteceu com o somatório de suas vivências e com a ligação de informações obtidas. Só depois, ao sentir a necessidade, procurou a ciência através dos livros e, desta forma, ampliou ainda mais seus conhecimentos. Existia nele o desejo de saber sobre tudo de forma minuciosa e sempre buscou mais esclarecimentos daquilo que lhe interessava. Mesmo tendo certo fascínio pela turbulência das águas e pelo voar dos pássaros, Da Vinci jamais deixou de se interessar por tantas outras manifestações da natureza e de aplicá-las no uso das atividades humanas.

Com extraordinário poder de observação e o conhecimento adquirido com a natureza, Leonardo desenvolveu sua criatividade, beneficiando o ser humano desde as mais simples tarefas, assim como aplicou seus conhecimentos nas artes e nas ciências. Winnicott (1975) considera a criatividade como uma posição de atitude completa diante da realidade externa, aplicando-a nas atividades mais simples do ser humano, o que se parece com a postura de Leonardo.

Percebemos que não havia nada que o impedisse de ir em frente na busca do conhecimento e na aplicação do que aprendia em suas diversificadas criações. Não tinha medo de errar, não tinha receio de críticas, não havia nenhum limite. Nenhum obstáculo era visto como impedimento ao seu raciocínio e sua busca do saber. Notamos que estes eram usados como forma de experiência. Parece que ele sempre se sentia muito seguro.

Nas criações desenvolvidas por Leonardo, havia uma síntese de sua habilidade artística, de seu conhecimento e de seu poder de imaginação criativa. Ele tinha uma habilidade excepcional para interligar inúmeras observações e ideias de diferentes especialidades. Era desta forma que ele aprendia e desenvolvia suas pesquisas. Ele apresentava algumas motivações lúdicas, conforme o pensamento de Winnicott (1982). Em suas criações, ele foi famoso pela habilidade de captar sutilezas em expressões faciais e gestos, e de tecê-los em complexas narrativas composicionais, colocando emoções em suas telas.

Ao desejar pintar uma figura, primeiro considerava qual posição social e natureza iria representar: nobre ou plebeu, alegre ou severo, perturbado ou sereno, velho ou jovem, irado ou plácido, bom ou mau. No momento que havia decidido, ponderado e meditativo, partia para pesquisar os lugares onde sabia que pessoas desse tipo físico se encontravam. Observava seus traços faciais, seus comportamentos, seu vestuário, seus gestos e, quando encontrava o que se adequava ao seu propósito, esboçava-o em seu pequeno caderno de registros.

Observamos que a natureza abrange a criação das coisas simples, mas o homem, a partir de sua capacidade, produz uma infinidade de compostos conforme suas habilidades de interrelacionar vivências e ideias sobre sua criatividade própria.

No período vivido por Leonardo, havia muitas guerras e mudanças políticas, uma das razões pela qual ele mudou-se várias vezes. Estes deslocamentos aconteciam a cavalo. O longo tempo de translado a outra cidade lhe servia como reflexão e base para posterior produção científica e artística ainda mais impressionante, pois, durante a trajetória, Leonardo podia observar diversas manifestações da natureza que contribuíam com o desenvolvimento de suas criações.

A originalidade de Leonardo revelou-se em sua integração aparentemente sem esforços da arquitetura, da geometria complexa e da natureza. Estes projetos reproduzem seus empenhos nesta correlação quando, por exemplo, criou jardins como parte da casa. Ele comparava a cidade com um tipo de organismo vivo, no qual as pessoas, os bens materiais, a comida, a água e o lixo precisavam se mover e fluir com facilidade, para que a cidade permanecesse saudável. Porém, suas ideias só foram aceitas no século seguinte.

O investimento de Piero para com Leonardo foi constante. Sendo ambicioso e sempre tendo desejado filhos, pelo que percebemos em sua história, Piero proporcionou o que de melhor poderia oferecer naquela época para seu primogênito, mesmo sendo ele um filho bastardo. Leonardo identificou-se com seu pai em sua ambição e dedicação intensiva às atividades profissionais. É possível que Leonardo tenha tentado tornar-se um filho desejado pelo pai. Em toda a sua trajetória de vida, parece-nos que Piero correspondeu a este sentimento que Da Vinci sentia por ele. Este pai foi distante, contudo interessado. Considerando a época, sempre esteve acompanhando e incentivando o desenvolvimento de seu filho com admiração, mesmo não havendo registros nos livros de que houvesse relacionamento afetivo com manifestações de carinho entre eles. O pai, que era ambicioso e muito interessado em sua própria carreira, parece ter tido um cuidado permanente com Leonardo, para que ele se tornasse um gênio brilhante. Da Vinci estava fazendo o que gostava e desenvolvendo-se naquilo para o qual tinha habilidade.

Coletando dados históricos, podemos presumir que Piero tenha vivido uma relação amorosa com Caterina. Leonardo surgiu desta relação significativa, ou seja, não foi uma relação desprovida de carinho. No momento que ela engravida, Piero não a abandona, o que poderia ser esperado diante da situação vivida, em uma época em que a mulher não era valorizada. Este acomoda Caterina em uma casa de boas condições, situada no alto de uma colina, lugar discreto e distante da cidade. A história nos faz pensar que Piero tenha continuado a visitar aquela que seria a mãe de seu filho. Ele precisava continuar suas atividades profissionais na cidade e manter as regras daquela sociedade, por estar casado com alguém de sua casta. Contudo, pela localização da casa onde Caterina passou a viver a partir de então, Piero poderia fazer-lhes discretas visitas. Não sabemos se estas visitas seriam para acompanhar o crescimento de seu filho, ou para encontrar Caterina. Ela já não era mais uma serva. Trabalhava apenas para seu cuidado próprio e de seu filho que estava chegando.

Piero nunca desistiu de formar uma família. Casou-se duas vezes e, com estas duas esposas, não teve filhos. Elas faleceram. Somente ao casar pela terceira vez, teve outros filhos além de Leonardo. Realizou seu desejo tendo 12 filhos com a terceira esposa. Piero faleceu aos 80 anos, deixando 10 filhos e duas filhas, além de Leonardo.

Observamos que Leonardo pertenceu a uma família de homens cuidadores de seus filhos. Iniciando pelo chefe da família Vanni, que não podemos afirmar que era da família de Piero; contudo, deixou uma herança para este, o que, de certa forma, é um cuidado. Piero cuidou durante toda a sua vida de Leonardo, que também foi cuidado por seu tio depois que o pai casou pela terceira vez, e pelo grande mestre Verrochio quando já estava com 11 anos.

Leonardo teve a presença importante de duas figuras femininas que foram marcantes em sua vida e em sua maternagem: a mãe Caterina e a madrasta Albiera. Alguns autores, como Freud (1910/1996), afirmam que elas foram representadas em algumas telas de Leonardo, como "A Virgem com o Menino Jesus e Santa Ana", na qual percebemos duas cabeças femininas, sendo que os corpos destas duas mulheres parecem se fundir em um. Diante de um homem perspicaz na busca de expressões que transmitiam os sentimentos mais profundos, penso que ele, nesta obra, também revela os seus sentimentos mais íntimos sobre as mulheres que ocuparam um lugar respeitável e significante em sua vida.

Em uma época em que crianças não eram valorizadas como nos tempos atuais, Leonardo teve todos os cuidados necessários, orientações e investimentos possíveis, como poucos recebiam naquele tempo. Apoiado pela família em sua curiosidade e na busca de conhecimento incessante, sempre esteve próximo dos melhores artistas e pensadores do século XV.

Seguindo o pensamento de Winnicott (1982), em toda a sua vida, desde seu nascimento, Leonardo pode ter vivido diversas experiências ambientais que desenvolveram a sensação de confiança, que o fez tornar-se com alto poder criativo. A história de Leonardo faz-nos ver que houve um espaço potencial entre ele bebê e sua mãe, criança e sua família, e como sujeito relacionando-se com a sociedade De acordo com Winnicott (1975), seja qual for a experiência que proporcionou a confiança, esta deve ser valorizada, pois é desta forma que o sujeito experimenta um viver criativo.

Leonardo afirmava que o Sol não se move. Ele estava certo, mas também sabia que, para que a criatividade brotasse em seus pensamentos, havia necessidade de intenso movimento. E foi no movimento que fez durante toda a vida que a criatividade se estabeleceu, emergindo cada vez mais, fazendo-o brilhar.

Referências 

Arrechea, Julio. Leonardo: Artista, físico, inventor. Hardcover: Libsa, 2005.

Capra, Fritjof. A ciência de Leonardo Da Vinci: Um mergulho profundo na mente do grande gênio da Renascença. São Paulo: Cultrix, 2008.

Freud, Sigmund (1910). Leonardo Da Vinci e uma lembrança de sua infância. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. Vol. XI.

Masters, Roger. Da Vinci & Maquiavel: Um sonho renascentista – De como o curso de um rio mudaria o destino de Florença. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

Valéry, Paulo. Introdução ao método de Leonardo Da Vinci. São Paulo: Ed 34, 1998.

Winnicott, Donald W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

Winnicott, Donald W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1982.

Zöllner, Frank. Leonardo: Artista e cientista. Köln: Taschen, 2000.

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* Artigo publicado na Revista de Psicanálise Rabisco. Vol. 2, n.1, maio 2012.

**Márcia Zart é psicóloga e especialista em Teorias e Psicoterapias Psicanalíticas.

 

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