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10 / 02 / 2011 Enigmas da dor: quando as palavras não comparecem


Enigmas da dor: quando as palavras não comparecem ao setting terapêutico[1]
Sandra Aparecida Serra Zanetti[2]
esentação

“Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

(...)

Chega mais perto e contempla as palavras.

Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra

e te pergunta, sem interesse pela resposta,

pobre ou terrível, que lhe deres:

‘Trouxeste a chave?’"

(Carlos Drummond de Andrade).

 

Palavras. Um texto se constrói por palavras, muitas delas. Um poema se faz pela escolha delicada delas. Contudo, será que uma dor também pode ser construída por meio delas?

A escrita de um caso clínico é a possibilidade de encontrar-se com o paciente num outro âmbito, olhá-lo de outro ponto de vista: caem-se algumas cortinas, novas percepções desabrocham (Zanetti & Kupfer, 2006). E foi especialmente neste sentido que este texto foi produzido: para que as palavras pudessem emergir do profundo de seu reino e viessem contemplar, representando aqui o que foi quase sempre sentido como irrepresentável por muito tempo em um atendimento clínico difícil, marcante e dolorido, em que as palavras, por diversas vezes, não compareceram ao setting de atendimento.

Foi sempre muito angustiante estar ao lado de Felipe[3], desde seus 13 anos, quando a terapeuta o conheceu. Uma angústia que tomava o seu corpo e o dela. Ele que era inteiramente corpo, lugar que não estava habituado com palavras. O dela que em contato com sua dor também funcionava como se as palavras não existissem. O funcionamento psíquico de Felipe era bastante primitivo e por isso tolerava muito pouco ser tratado por meio das palavras. Era como se elas irrompessem alguma dor sem medidas e, no entanto, também portavam o único meio de ajudá-lo.

As poucas intervenções da terapeuta por muito tempo foram sentidas como uma estranheza que doía. Ele reagia com gestos brutos, chutes em bolas que quase atravessavam a parede da sala de terapia. E a dor era a dor de estar abrigado, de estar longe de sua mãe. Felipe nunca se conformou com isso. Em sua fantasia, o abrigo tinha os afastado, pois não podia reconhecer que a mãe que cuidou dele era a mesma que não era mais capaz de fazer isso. Um forte mecanismo de idealização o protegia da crua realidade que sempre vinha lhe visitar quando a mãe não vinha.

Felipe foi abrigado aos oito anos de idade por negligencia de cuidados da mãe com quem morava e por ter sido abusado sexualmente diversas vezes por um membro da família, até que uma vizinha denunciou. Nesta época o seu pai era falecido e já possuía pouco contato com o restante da família.

No abrigo, Felipe tinha um histórico de muita agressividade com os colegas e com os educadores quando o contrariavam, chegando, inclusive, a quebrar objetos quando ficava nervoso. Embora todo esse comportamento, ele também exibia muita ternura no contato, um grande desejo de amar e se sentir amado. Eram os extremos das emoções: ternura e agressividade apareciam em quase todas as sessões. Mas o que mais pôde ser percebido desde o começo era sua dificuldade de conter a frustração por pequeninos “nãos”.

Devido a um ódio e a um amor intensos, nos dois primeiros anos de atendimento foi também muito custoso para a terapeuta estar com Felipe. O seu humor, extremamente vulnerável a qualquer interferência do ambiente, levava-a a sentir medo, em muitos momentos, porque mesmo aos 13 anos o seu corpo já se apresentava como de um homem forte, ainda que também demonstrasse ser uma criança pequena por dentro.

Felipe sempre amou demais uma mãe que superava sua capacidade de tolerar a frustração. Combinava sua ida ao abrigo e não cumpria, combinava finais de semana juntos e não aparecia, e o ódio todo era direcionado à transferência. Para Winnicott (2000) só poderá existir saúde se a mãe suficientemente boa pôde falhar conforme as possibilidades do bebê, após ter-lhe oferecido viver um período de onipotência. Não será possível saber se este menino foi um bebê que pôde viver esta onipotência e como esta mãe foi para ele até seus oito anos. Contudo, sabe-se que ela sempre fora uma mãe atenciosa e carinhosa quando presente, mas com grandes dificuldades e falta de recursos internos para conseguir se organizar na vida. Ela nunca manteve um emprego ou uma residência fixa. Inclusive, quando Felipe foi abrigado, ele estava na rua pedindo esmolas.

 

Na falta de palavras...

Vítima de abuso sexual quando pequeno, no terceiro ano de terapia passou a apresentar um comportamento de repetição do trauma vivido. Aliado à sua força e agressividade, isto foi um comportamento altamente condenável pelos educadores do abrigo, que passaram a tolerá-lo cada vez menos. Realmente, tratava-se de um comportamento anti-social, já que escolhia crianças para seduzir e isto preocupava toda a instituição. Nesta época ainda era bem pouco acessível à terapeuta e foi bastante sofrido para ele começar a conversar sobre estas questões com ela, porque ele simplesmente não conversava, sobre nada. A terapeuta sentia que qualquer palavra que lhe dirigisse caia num vazio... num buraco realmente profundo, talvez no buraco em que este adolescente se encontrava.

Na falta de recursos para elaborar aquilo que é da ordem do insuportável, do irrepresentável, só lhe restava atuar. Toda a sua dor e indignação ficavam para a terapeuta e os funcionários do abrigo sentir.

A partir de Freud, Kaës (2005) considera o pré-consciente “como o sistema do aparelho psíquico no qual se efetuam os processos de transformação que certos conteúdos e processos inconscientes sofrem para retornar à consciência” (p. 67), ligando coisa à palavra. Além disso, “as capacidades associativas e interpretativas, vitais para a psique, está inserida neste sistema” (p. 67), processos que se relacionam com sublimação e simbolização. Entretanto, o autor evidencia que esses processos e as organizações do pré-consciente são parcialmente dependentes da vida psíquica do outro, e relembra que a própria atividade e formação do pré-consciente dependem, em parte, da capacidade de devaneio (Bion, 1966) do outro.

Acreditando que Klein (1933/1967; 1981) não tira consequências significativas de seu conceito de “identificação projetiva”, Kaës (2004) apoia-se nos estudos de Bion (1966; 2003) e de Meltzer (1993) que, embora inscritos na filiação kleiniana, modificam sua orientação, segundo ele. Para Kaës (2004), Bion (2003) concebe o sonho como o “primeiro estado na formação do pensamento: o sonho dá forma às experiências emocionais, tece laços entre a vida fantasmática e a realidade externa” (p. 22). Bion (1966), assinala Kaës (2004), descobre uma função essencial exercida pela mãe para que o bebê elabore a percepção de sua experiência emocional, “denomina-a de função-alfa e caracteriza-a pelo fato de que a mãe metaboliza e interpreta o que o bebê não pode conter e elaborar. Os elementos que ela produz permitem que ele crie sua própria função-alfa” (p. 22).

Portanto, segundo Bion (2003), a mãe pode possuir um estado de espírito receptivo, capaz de acolher as identificações projetivas do bebê, sejam elas boas ou más, e denominou este estado de “capacidade de devaneio”, em que exerce a função-alfa por seu filho. Esta atividade definida como função-alfa por Bion (2003) é semelhante a que Freud (1939/2006) denomina de função pré-consciente e é, apropriadamente, neste sentido que Kaës (2005) estabelece que a atividade do pré-consciente depende parcialmente da vida psíquica de um outro.

Kaës (2004) defende, portanto, que os processos de estruturação e de manutenção da capacidade do pensamento, os processos elaborativos, ou seja, as funções do pré-consciente, desde o início da vida, e principalmente no início, dependem da capacidade de “holding onírico” da mãe ou de um outro. Isto é, à medida que se cumprem certas funções de continência, de hospedagem e de transformação dos pensamentos.

Nesses termos, a falência do pré-consciente, para Kaës (2005), tem como efeito a confusão entre o dizer e o fazer, entre a ação e a representação, e considera que os mesmos efeitos operam nos vínculos intersubjetivos. Nesta perspectiva, para o autor, as falhas do pré-consciente traduzem-se em actings violentos e na raiva do pensamento, como podiam ser vistos em Felipe.

Como já colocado, não será possível saber sobre os sonhos de sua mãe, nem se ela pôde ajudá-lo a elaborar seus sonhos não sonhados ou interrompidos, como propõe Ogden (2010), mas, então, será essa a função do terapeuta, principalmente nesses casos difíceis em que a capacidade psíquica de elaboração está tão defasada que despeja toda a angústia, a dor e a violência em quem estiver fora, e, principalmente, no terapeuta. Caberá, portanto, a ele exercer dentro do setting a capacidade de receber toda a dor e a angústia, ajudando o paciente a transformá-la em algo mais tolerável, emprestando seus mecanismos oníricos, a capacidade de devaneio, de pensamento, suas funções pré-conscientes.

Nestes três anos e meio de terapia foram necessárias muitas sessões de supervisão para dar sentido ao irrepresentável, ao ódio, ao desprezo, ao sentimento de desamparo e, principalmente, à falta de esperança. Através desse outro continente, a terapeuta então podia pensar, sonhar os sonhos não sonhados, ajudá-lo a viver.

Em meados do terceiro ano de terapia, a mãe de Felipe sofre um acidente grave e fica hospitalizada. Justamente numa época em que estava conseguindo se organizar um pouco mais com emprego e moradia, e havia requerido a guarda de seu filho. Felipe estava bastante contente com o fato e pensava em fazer suas malas quando soube do acidente.

Foi um momento de perda total de esperança para Felipe que piorou muito nos seus comportamentos de agressividade e de abuso sexual em relação às outras crianças. As queixas do abrigo aumentaram e pensaram de encaminhá-lo a alguma casa de detenção. A terapeuta ficou profundamente alarmada com essa possibilidade e reuniões foram agendadas para que os educadores do abrigo pudessem pensar em Felipe do modo que pensava. Suas sessões passaram a ser de duas vezes por semana.

Nesta época ele pareceu sentir toda a rede de preocupações formando e passou a se apresentar mais calmo e mais presente em seu reforço escolar. Em uma sessão, quando a agressividade parecia estar pronta para explodir porque não conseguia acertar as bolinhas de gude, consegue se acalmar e começar novamente o jogo. A terapeuta então lhe aponta o quanto essa estratégia de parar e pensar numa outra possibilidade de procurar conseguir o que se quer foi importante para que pudesse realmente continuar a aproveitar a brincadeira. Ele ouve e parece entender. Demorou 14 anos para ele se alfabetizar, foi por volta dessa época que isso ocorreu.

A possibilidade de pensar e tolerar a frustração aumentaram, e a representação ao invés da ação pôde tomar lugar dentro dele por meio de um vínculo suficientemente bom entre paciente e terapeuta. Essa o ajudava a conter o intolerável, a dar nomes às dificuldades, aos sentimentos, à falta que sentia da mãe e principalmente ao medo dela morrer, porque ele sabia que ela corria riscos. Eram, finalmente, as palavras tomando (seu) corpo.

 

Um desfecho em desamparo...

Alguns meses depois da internação da mãe, em meados de julho, enquanto as crianças da instituição voltavam para seus lares para visitar seus parentes, Felipe ficava no abrigo sem muito o que fazer. Não podia visitar sua mãe no hospital porque o abrigo contava com menos funcionários em função das férias. O número de sessões também havia diminuído porque a terapeuta nesta época precisou fazer algumas viagens. Seu sentimento de solidão aumentou de forma significativa.

A ação voltou a tomar o lugar da representação e se perderam novamente as palavras. Principalmente quando, no final desse mês, ele fica sabendo que sua mãe havia falecido. Foi então que algo da ordem do insuportável novamente tomou conta dele de uma maneira incontrolável e ele fugiu. Fugiu da realidade dura de mais para ser verdadeira.

Felipe passou a “fugir” com frequência do abrigo para se relacionar com meninos de uma comunidade próxima. Ao que tudo indica, passou a se envolver com drogas e roubos. Toda a equipe técnica da instituição entra novamente em desespero e a terapeuta explica que a dor que eles sentem, a angústia que qualquer um sentiria ao entrar em contato com esse caso, é a dor de um luto que ainda não pôde ser vivido e que não tomou qualquer forma dentro dele. Num funcionamento preponderantemente “esquizoparanoide”, com cisões predominantes e mecanismos de defesa primitivos, como a negação e a recusa da realidade, ele segue num faz-de-conta insipiente e cheio de buracos, sujeito a quedas nos abismos de si mesmo.

Uma mãe que concentrava toda esperança dentro dele se foi. Será preciso um longo trabalho para que essa dor encontre algum lugar em que possa se alojar com um certo conforto, será preciso muito tempo. E esse tempo a instituição não tem, pois temem pelos demais. Pensam em interná-lo ou transferi-lo de instituição para que possam ser desfeitos os “laços de desespero” que ele criou com esse grupo da comunidade que aparentemente lhe dá tudo o que quer.

Apesar de tudo, a terapeuta acredita que houve uma construção em toda essa caminhada e que onde ele estiver carrega dentro dele a possibilidade de fazer diferente quando essa dor irrepresentável, em algum momento, puder encontrar alguma paz.

 

Referências

Bion, W. R. (1966). Elementos da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.

 

_________. (2003). Aprender com a Experiência. Rio de Janeiro: Imago.

 

_________. (1939-2006). Moisés e o monoteísmo: três ensaios. In S. Freud, Moisés e o Monoteísmo, esboço de Psicanálise e outros trabalhos (1937-1939). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de S. Freud, Vol. XXIII. (pp. 15-150). Rio de Janeiro: Imago.

 

Kaës, R. (2004). A Polifonia do sonho: a experiência onírica comum e compartilhada. São Paulo: Ideias e Letras.

 

_______. (2005). Espaços Psíquicos Compartilhados: transmissão e negatividade. São Paulo: Casa do Psicólogo.

 

Klein, M. (1933-1967). Le développement precoce de La conscience chez l’enfant. In M. Klein, Essais de psychanalyse. Paris : Payot.

 

______. (1981). Contribuições à Psicanálise. São Paulo: Mestre Jou.

 

Meltzer, D. Le monde vivant du rêve. Lyon: Césura, 1993.

 

Ogden, T. H. (2010). Esta Arte da Psicanálise: sonhos não sonhados e gritos interrompidos. Porto Alegre: Artmed.

 

Winnicott, D. W. (2000). Da Pediatria à Psicanálise: obras escolhidas. Rio de Janeiro: Imago.

 

Zanetti, S. A. S & Kupfer, M. C. M. (2006). O relato de casos clínicos em psicanálise: um estudo comparativo. Estilos da Clínica, XI (21), 170-185.

 

[1] Adaptação de texto publicado como “Quando a dor é irrepresentável: o caso clínico de um adolescente em desespero” nos Anais da VIII Jornada Apoiar: promoção de vida e vulnerabilidade na América Latina: reflexões e propostas, 2010, pp. 213-221.

 

[2] Psicóloga e Mestre (pelo IP-USP); Doutoranda do programa de pós-graduação em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. sandra.zanetti@gmail.com

[3] Nome fictício adotado.

 

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