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14 / 02 / 2011 - Transmissão psíquica transgeracional e violência


Transmissão psíquica transgeracional e violência conjugal: um relato de caso[1]
Isabel Cristina Gomes[2]
ão

Não é fácil, em nossos dias, descrever o que é ser adulto. A complexidade, a diversidade e as singularidades da cultura

A psicopatologia dos vínculos conjugais

Desde Freud, com as séries complementares, temos o prenúncio do estudo dos pares complementares e das escolhas inconscientes na constituição dos casais, que mais tarde se desenvolve com o corpo teórico e clínico da psicanálise de casais e com a ênfase no entendimento do tipo de relação ou vínculo inconsciente que permeia a escolha do par.

Entretanto, é especificamente com os trabalhos de 1910 (“Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens”), que Freud delineia o que hoje a psicanálise de família vem se dedicando intensamente, ou seja, a influência dos modelos parentais (família nuclear) na escolha e estabelecimento dos vínculos conjugais e familiares, sendo transmitidos de uma geração a outra. E onde o autor traça as bases das escolhas amorosas feitas por homens e mulheres, no contexto do amor normal, tendo como referência teórica fundamental a descoberta do complexo de Édipo, que surge publicado, pela primeira vez, numa nota de rodapé desse trabalho[3].

Não podemos deixar de enfatizar, também, que com “Totem e Tabu” (1912/1913) o autor amplia esse ponto de vista sobre a origem e estruturação familiar para a organização da sociedade, tendo como conceito central o tabu do incesto.

Tomando-se como ponto de partida a psicanálise freudiana, escolhemos autores que abordarão a questão das escolhas conjugais sob o vértice da psicopatologia, numa tentativa de elucidar a formação desses vínculos inconscientes.

Berenstein e Puget (1994), elaboraram uma tipologia dos vínculos conjugais bastante esclarecedora e didática, que nos permitiu a apreensão e criação de uma ideia “desenvolvimentista” dos vínculos estabelecidos entre os casais.

De acordo com esses autores, os vínculos conjugais mais primitivos, ou mais patológicos envolvem a noção de fusão, idealização, com recusa das individualidades de cada um e o desejo de um ser a imagem especular do outro, estabelecendo-se assim um tipo de dependência adesiva onde a autonomia é inconcebível. A complementaridade entre os pares se coloca nessa etapa vincular, destacando-se o par amparador-desamparado, onde os membros do casal mantêm-se fundidos, e os afetos são da ordem da violência, irritação e hostilidade. O projeto vital está sujeito a desacordos ou, ao contrário, a uma submissão total, com redução do projeto de dois ao de um só. Não existirá conflito, quando a meta de um ego for a de transformar o outro em um complemento, anulando sua capacidade de pensar e de autonomia, com o outro ego curvando-se. As mensagens costumam ser contraditórias, produzindo uma relação baseada no enlouquecimento e confusão.

Seguindo essa linha desenvolvimentista apresentada pelos autores acima, os tipos de vínculos duais e fusionais vão evoluindo para a necessidade da entrada de um terceiro, que ocupará o lugar de excluído, mas permitirá que o par não sucumba à indiscriminação anterior. Até a etapa do estabelecimento de vínculos mais maduros, com a existência de duas mentes discriminadas no casal, cujo projeto vital compartilhado vai incluir o aparecimento de um terceiro, sem a ênfase na exclusão anterior, e que a fusão não é mais necessária ou imprescindível para a manutenção do par.

Kernberg (1995), um profundo estudioso das relações amorosas, também discorre sobre o tema do amor conjugal sob a ótica do desenvolvimento, enfatizando as características do amor sexual maduro, o tornar-se um casal a partir das experiências edípicas, comparando com a psicopatologia dessas relações, principalmente as relacionadas com agressão e com os pares sadomasoquistas, embasando-se, muitas vezes, no referencial freudiano.

O autor acima vai exemplificar a perversidade nas relações amorosas através de padrões sadomasoquistas que dominam e controlam o relacionamento emocional, em virtude da dominância e controle por aspectos persecutórios e sádicos de funções do superego edípico e pré-edípico mutuamente projetados.

Numa publicação anterior, Kernberg (1992, apud Kernberg, 1995) descreve em detalhes, a partir de sua experiência clinica, as relações amorosas masoquistas nas mulheres, que são mais freqüentes que nos homens, inclusive. O autor define como algo comum o se apaixonar por um homem inatingível, inacessível, em algum momento da adolescência; e que isso nada mais é do que uma manifestação normal da reativação de conflitos edípicos, mas a persistência e, especialmente, a intensificação desse amor não correspondido, é o que caracteriza esse tipo de escolha amorosa e uma fixação no trauma as leva a intermináveis repetições das mesmas experiências.

Gostaríamos de destacar aqui, a influência do mecanismo de repetição na elaboração ou fixação de uma situação traumática, relacionada à construção de uma dada subjetividade, dentro do cenário dos relacionamentos conjugais e estruturações familiares.

Em “Recordar, repetir e elaborar”, Freud (1914), fixando as bases da técnica psicanalítica faz distinções importantes entre o repetir na situação analítica, de experiências traumáticas do passado do paciente, como sendo o mecanismo pelo qual o reprimido se torna consciente, gerando possibilidades de elaboração, onde está presente esse tipo de recordar. Em contrapartida, quando a força da resistência não pode ser anulada, essa repetição se torna “atuação”, podendo ocorrer inúmeras vezes na vida do paciente e na transferência com o analista, tendo como resultado a perpetuação de vivências traumáticas e/ou fixações, sem possibilidade de superação do dito trauma.

O objetivo deste trabalho é tecer reflexões a partir de uma determinada prática clínica, que envolve a construção de uma dada subjetividade, que se dá no contexto conjugal e familiar, envolvendo a violência doméstica no casal. Esse tipo de vivência pode ser entendido não apenas como fruto da agressividade e/ou sadismo de um dos pares, mas também da busca de realização de fantasias masoquistas do outro, bem como, do estabelecimento de relações de poder na família (Gomes, 2003) e, principalmente, de aspectos transgeracionais, incluindo uma determinada transmissão do psiquismo, envolvendo o papel e a função da mulher ao longo de três gerações e mitos familiares.

 

Transmissão psíquica transgeracional

 

Quanto à noção de transmissão psíquica na constituição do sujeito, pode-se dizer que já estava presente na obra de Freud desde os trabalhos de 1912/1913. Entretanto, só nas últimas décadas é que esse tema acabou sendo objeto de interesse entre os psicanalistas, mais precisamente um grupo de psicanalistas franceses que procurou fazer uma correlação entre a terapia de grupo e a familiar, destacando-se Eiguer (1998) e Kaës (1993, 1998).

Kaës (1998) acentua que a construção da subjetividade se dá no espaço e no tempo da geração, do familiar e do grupal, e que o estudo da transmissão psíquica entre gerações nos ajuda a refletir sobre: “O que é que me vem do outro, que me é transmitido, e que eu transmito - ou transfiro - a que me submeto, do qual me beneficio, ou que me arruína, do qual posso ou não me constituir herdeiro? E o que me vem de alguns outros?” (p.6). O que se transmite, por um lado, é o referente ao “negativo”, ou seja, “preferencialmente o que não contém, aquilo que não se retém, aquilo de que não se lembra, como a vergonha, a falta, a doença, o recalcamento, os objetos perdidos e ainda enlutados” (p. 9)... Mas, transmite-se também “aquilo que ampara e assegura as continuidades narcísicas, a manutenção dos vínculos intersubjetivos, a conservação das formas e os processos que envolvem a complexidade da vida: ideais, mecanismos de defesa, identificações, certezas, dúvidas” (p. 9).

A transmissão psíquica geracional se apresenta de duas formas distintas, de acordo com Correa (2000): A Intergeracional como sendo aquela que inclui um espaço de metabolização do material psíquico transmitido pela geração mais próxima e que, transformado, passará à seguinte. E a Transgeracional que se refere a um material psíquico da herança genealógica não transformada e não simbolizada, apresentando assim vazios e lacunas na transmissão, de modo que o significado aponta para o fato psíquico inconsciente que atravessa diversas gerações.

Rosa (2001) vai apontar especificamente para a transmissão do não-dito, onde está presente uma situação de escolha muito ambivalente nas gerações: entre o dizer e o não dizer, a solução adotada por famílias que enfrentaram situações de sofrimento muitas vezes é a de não falar sobre o passado doloroso.

“Os pais partem de, pelo menos três suposições. Pensam que é possível construir um futuro independente do passado e que este, quando penoso, deve ser apagado, esquecido, pois sua revelação seria traumatizante para o filho. Supõem também que só se transmite o que se diz e que, portanto, deve-se passar a idéia de um mundo harmonioso e bem sucedido para que os filhos tenham bons exemplos e sintam-se felizes” (p. 123).

 

A autora demonstra que a transmissão acontece apesar do não-dito, já que se fundamenta não nas palavras, mas no desejo do Outro.

“Calar-se sobre o acontecimento é tentar suspender o enigma de sua significação, tanto para quem cala como para o outro, que recebe não o enigma, mas um significado solidificado, uma única versão substitutiva tomada como verdade. Dessa forma, calar pode ter função de dupla alienação: mantendo o sujeito no refúgio narcísico e mantendo-o submetido a uma ordem instituída como condição para pertencer ao grupo familiar ou social” (p. 124).

 

Nesse contexto, Prado (2000) tem uma importante contribuição a trazer, na medida que nos apresenta o mito familiar como estando marcado, principalmente, por nãoditos, por tabus, ou até pelo não pensado, que podem ser mantidos ocultos por uma ou duas gerações, sempre tendo algo de sua existência transpirando para gerações seguintes.

Vários pesquisadores e terapeutas de família dimensionam o impacto das heranças familiares advindas da família de origem no estabelecimento dos relacionamentos conjugais.

Wagner e Falcke (2001) fazem uma revisão da literatura, na última década, de artigos englobando várias correntes teóricas da Psicologia, onde os pesquisadores se dedicaram a examinar a influência da família de origem nas escolhas conjugais e na determinação dos motivos (conscientes e inconscientes) que levam as pessoas a elegerem seus parceiros. As autoras confirmam a existência de uma forte tendência à repetição de padrões de relacionamentos afetivos experimentados na infância e colocam em destaque a repetição de padrões destrutivos aprendidos nas famílias de origem.

Um exemplo ilustrativo desses resultados de pesquisa, ainda de acordo com as autoras acima citadas, é o trabalho de Furman e Flanagan (1997) realizado com homens e mulheres casados, onde foi verificado que as mulheres com modelo parental de insegurança reportaram que seus companheiros são mais agressivos verbal e fisicamente do que as mulheres de modelo parental seguro.

Apresentaremos a seguir fragmentos de uma experiência de atendimento a um casal em Psicoterapia Breve de Orientação Psicanalítica, de referencial winnicottiano, desenvolvido na clinica-escola do Instituto de Psicologia da USP, de acordo com Gomes (1998). Num artigo recente, Gomes e Paiva (2003) articularam uma proposta de utilização do referencial winnicottiano (principalmente as noções de holding, criatividade e desenvolvimento pessoal) na psicoterapia com casais. No sentido de que o casamento possa ser visto, não apenas como um lugar de estabelecimento, permanência (pela dor psíquica) e repetição de vínculos patológicos, mas como um espaço potencial de crescimento individual. Contudo, no material clinico escolhido mantém-se o primeiro ponto de vista, ou seja, casamento como um espaço de manutenção (pela repetição) de vínculos patológicos.

 

Relato do caso

 

No início do ano de 2002, B. procurou a Clínica Psicológica da USP para um psicodiagnóstico de sua filha, pois se preocupava com o contato da menina com o pai que era foragido da justiça. O psicodiagnóstico foi feito, percebendo-se que as questões da filha estavam mais relacionadas à mãe e B. foi, então, encaminhada para terapia individual.

B. permaneceu em terapia individual por alguns meses, onde foi muito discutida sua relação com o atual marido e seu papel de mãe, já que a filha era criada pela avó materna, tendo contato com a mãe somente de final de semana, e a menina demonstrava o desejo de intensificar esse convívio entre as duas. Durante os atendimentos, B. foi percebendo que suas preocupações em relação à filha eram infundadas e que era ela quem realmente necessitava de ajuda.

Decorridos oito meses da psicoterapia individual de B., foram surgindo pedidos de seu atual marido para também fazer parte do atendimento. Cogitou-se a possibilidade desse pedido ser devido a um sentimento de ciúmes por parte dele, já que B. tinha um terapeuta do sexo masculino e o marido estava excluído dessa relação. De qualquer maneira, foi dada a eles a oportunidade de iniciarem um processo terapêutico de casal, já que era tema recorrente nos atendimentos de B. a forma “desrespeitosa” que o esposo a tratava.

Iniciou-se, então, nova etapa terapêutica, após um período de férias institucionais, com o atendimento ao casal sendo realizado por um outro terapeuta do sexo feminino[4]. Na história de vida de B. notou-se a existência de um forte padrão de transmissão psíquica entre as gerações de mulheres de sua família, incluindo-se aqui, sua mãe, avó, ela própria e sua filha. Elas sempre escolhiam relacionar-se com homens agressivos, que as abandonavam e também aos filhos. B. parecia já ter feito o mesmo caminho em seus relacionamentos anteriores, sendo o mais notável o relacionamento com o pai de sua filha, seu ex-marido, um foragido da justiça, que a espancou durante o casamento e a abandonou com uma criança.

Entretanto, ainda nessa fase do atendimento individual, B. não se dava conta dessa repetição familiar e nem do quanto esse mecanismo de transmissão psíquica geracional influenciava a construção da sua identidade de mulher.

Desde o início da terapia de casal, ficou claro que o atual marido de B. desejava com sua presença nas sessões poder mostrar à terapeuta, apenas os defeitos e problemas da esposa. Para ele, todas as dificuldades do relacionamento conjugal seriam resolvidas caso a esposa se tornasse “uma pessoa mais equilibrada”, em suas próprias palavras. Nessa medida, ele se colocava no lugar do adequado, daquele que tem todo o controle sobre a situação relacional e de alguém que se esforça para buscar e atingir um bom clima conjugal.

Ao longo do processo psicoterápico com o casal, se por um lado o esposo enfatizava fortemente todas as suas atitudes nesse sentido e, contrariamente, como a esposa não se mostrava receptiva e cooperadora para aquilo que ele considerava um bom relacionamento a dois, ela demonstrava passividade ou aceitação frente as colocações dele.

Foi-se constatando que o casal apresentava um vínculo bastante primitivo de tipo sado-masoquista, com o marido mais agressivo e a esposa buscando nele a agressão, parecendo que as atitudes depreciativas dele para com ela confirmavam suas fantasias inconscientes de ser merecedora apenas desse tipo de sentimento, já que este foi o modelo estabelecido na família de origem, com o seu pai agredindo-a e à mãe e abandonando-as quando B. era criança.

No setting analítico, muitas vezes, o marido mostrava-se agressivo em relação à esposa e também com a terapeuta, principalmente quando esta lhe colocava limites.

Esses momentos de não-submissão da terapeuta parecem ter contribuído para que B. percebesse novos modelos de relacionamento, notando o quanto ela era responsável ao deixar-se ser agredida. Ela, então, teve momentos de recusa a essa agressão, o que desestabilizou bastante o vínculo sado-masoquista do casal, infelizmente culminando em um episódio grave de violência doméstica.

Após uma briga na qual a esposa reagiu em alguma proporção, o marido a espancou por uma noite inteira, terminando os dois muito feridos, ela por ter sido espancada e ele com a mão muito machucada de tanto bater.

Embora outras formas de violência, principalmente a de ordem psicológica, fizessem parte do vínculo conjugal e até o sustentassem, estavam a serviço de manter um certo equilíbrio dos pares tanto na esfera inter-relacional quanto na intrapsíquica.

O episódio grave de violência física sinaliza um desequilíbrio na forma de se vincular, em função da esposa experimentar um novo lugar nessa relação, daquela que pode vir a ser ou ter uma nova subjetividade, livre das interferências do passado (inclusive transgeracionais).

Além disso, esse episódio violento permitiu o contato com aspectos muito desestruturantes da personalidade de cada um: O marido acometido de um ciúme paranoico da esposa apresentava muita dificuldade em perceber e aceitar as diferenças intersubjetivas (em especial as opiniões divergentes de B.); comportamentos ditos psicopatas, já que envolviam o uso de mecanismos projetivos (clivagens de aspectos negativos do ego que ele colocava na esposa), atitudes sedutoras ou inesperadas, associando-se a um controle onipotente sobre o outro, utilizando-se da genitalidade como uma nova via de descarga motora para satisfação de fantasias e sentimentos de vingança; necessidade de forte controle do ambiente, mas sem se dar conta de controlar seus impulsos agressivos e/ou sua agressividade. A esposa, por sua vez, frágil, passiva, presa a uma construção subjetiva traumática do passado, repetia e tentava, via idealização desse casamento, sanar faltas e sofrimentos da infância.

A situação analítica trouxe à tona os conflitos conjugais mais fortes e velados, e pôde-se perceber o quanto era difícil ocorrer um verdadeiro diálogo entre eles, principalmente sobre esses temas conflitantes sem precisarem agredir-se mutuamente. O que estava em jogo era, quão fortes eles seriam para continuar desbravando um caminho que poderia levar a elaborações de alguns traumas individuais e a outras possibilidades de reparação, mais saudáveis, talvez, do que a manutenção desse tipo de vínculo conjugal.

O casal, após o episódio de violência, não consegue retomar a terapia, faltando varias sessões seguidas, mantendo apenas breves contatos telefônicos com a terapeuta. Quando, finalmente, conseguem comparecer à sessão, falam da decisão tomada por ambos de abandonar a psicoterapia, demonstrando uma imensa dificuldade de entrar em contato com essa nova forma de se vincular, principalmente a esposa, que assim confirma a manutenção de um mecanismo de repetição traumática, levando-a a retomar o lugar do passado, como todas as mulheres de sua família.

 

Considerações finais

 

A ideia de apresentar esse recorte do material clínico tem como finalidade promover a articulação dos conceitos teóricos, apresentados inicialmente, sobre a construção de uma dada subjetividade conjugal, envolvendo a repetição de situações traumáticas transgeracionais.

Essa construção subjetiva do feminino, envolvendo os papéis de mulher, esposa e mãe, da paciente B., está fortemente associada á transmissão psíquica transgeracional (três gerações de mulheres envolvidas), cuja história passada determinou integralmente suas escolhas de parceiros (anterior e a atual), tendo como resultado relacionamentos conjugais primitivos, fusionais e de natureza sado-masoquista, de acordo com a tipologia apresentada por Berenstein e Puget (1994) e Kernberg (1995).

Sua história de vida demonstra o determinismo causal das situações traumáticas ocorridas na infância; das repetições como fixações desses traumas ou como tentativas pouco elaboradas de soluções do problema; dos não-ditos transmitidos pela herança familiar; e das relações de poder que surgem no interior da família, de acordo com os estudos psicossociais, principalmente nos modelos tradicionais de casamento.

Portanto, sob esse ponto de vista, podemos supor que as escolhas conjugais realizadas desta forma estão necessariamente fadadas à psicopatologia das relações amorosas, gerando modelos transgeracionais enraizados, paralisantes, com casamentos que se tornam duradouros, entretanto, visando à morte psíquica dos pares, ou seja, a antítese do ditado popular: “felizes para sempre”.

Frente a um cenário desesperançoso, a busca pela vida se traduz em possibilidades de promover mudanças nesses vínculos conjugais primitivos, tornando-os mais desenvolvidos, através do atendimento psicanalítico individual e/ou aos casais.

Quando a paciente B. procura ajuda para sua filha, o entendimento dessa demanda dentro de um enfoque psicanalítico familiar, nos permite direcionar a prática clínica para ela própria (atendimento individual) e com isso desvendar sua história passada, numa tentativa de torná-la autora de uma história futura que permita, inclusive, uma nova construção subjetiva do feminino, envolvendo a próxima geração (filha).

No atendimento ao casal, o tipo de vínculo primitivo e sadomasoquista que estabeleciam foi ficando cada vez mais claro, bem como, a estrutura de personalidade de cada um. Se, em função do trabalho individual anteriormente realizado, a paciente pôde fazer tentativas de mudança no par conjugal, porém, não obteve sucesso, na medida que seu movimento não foi correspondido pelo marido, que se manteve preso ao conhecido, pois não apresentava condições psíquicas que permitissem alguma elaboração e desenvolvimento pessoal criativo.

Apesar da escolha de ambos pela manutenção do vínculo patológico, espera-se que a experiência vivida na situação analítica, embora infrutífera naquele momento, não caia totalmente no vazio, mas, que possa funcionar como um “vir a ser”, para um deles ou para o casal, no amanhã ou num futuro distante.

Podemos também considerar que, talvez o espaço da terapia de casal seja a melhor possibilidade de se tentar promover a interrupção de uma dada transmissão psíquica geracional, que por não ser capaz de elaboração ou transformação, deixará traços, visíveis em sintomas que continuarão a ligar as gerações entre si, num sofrimento de causa aparentemente desconhecida.

Mesmo que esse tipo de conduta terapêutica encerre um paradoxo: a própria violência que surge frente à descoberta do novo, singular, do sujeito se tornar autor de uma nova história psíquica, retirando-se do papel de herdeiro passivo, que até então, constituiu sua subjetividade.

 

Referências bibliográficas

 

Berenstein, I. e Puget, J. (1994). Psicanálise do casal. Porto Alegre: Artes Médicas.

Correa, O.B.R. (Org). (2000). Os avatares da transmissão psíquica geracional. São Paulo: Escuta.

Eiguer, A. (1998). A transmissão do psiquismo entre gerações. São Paulo: Unimarco.

Freud, S. (1980). Um tipo de escolha de objeto feita pelos homens. (Contribuições à Psicologia do amor I). In: S. Freud, Cinco lições de Psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, (vol. XI, pp.147-157). Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1910).

Freud, S. (1980). Totem e tabu e outros trabalhos. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, (vol. XIII, pp.13-191). Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1912/1913).

Freud, S. (1980). Recordar, repetir e elaborar (Novas recomendações sobre a técnica da Psicanálise II). In: S. Freud, O Caso de Schreber, Artigos sobre técnica e outros trabalhos. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, (vol. XII, pp. 193-203). Rio de Janeiro: Imago. (Original publicado em 1914).

Gomes, I.C. (1998). O sintoma da criança e a dinâmica do casal. São Paulo: Escuta.

Gomes, I.C. (2003) As relações de poder na família: um estudo de caso envolvendo a violência psicológica. Psicologia Clínica, 15, 2, 67-79.

Gomes, I.C. e Paiva, M.L. (2003). Casamento e família no século XXI: possibilidade de holding? Psicologia em Estudo, 8, num.esp., 3-9.

Kaës, R. (1993). Le groupe et le sujet du groupe. Paris: Dunod.

Kaës, R. (1998). Os Dispositivos psicanalíticos e as incidências da geração. In: A. Eiguer (Org). A transmissão do psiquismo entre gerações. (pp. 5-19). São Paulo: Unimarco.

Kernberg, O.F. (1995). Psicopatologia das relações amorosas. Porto Alegre: Artes Médicas.

Prado, M.C.A. (2000). Questões edípicas na inversão de gerações. Psicologia Clínica, 2, 1, 147-169.

Rosa, M. D. A. (2001). O não dito familiar e a transmissão da história. Psychê Revista de Psicanálise, 5, 8, 123-138.

Wagner, A. e Falcke. D. (2001). Satisfação conjugal e transgeracionalidade. Psicologia Clínica, 13, 2, 11-24.

 

 

 

[1] Artigo originalmente publicado em: Boletim de Psicologia, 2005, vol. LV, n.º 123: 177-188.

 

Projeto de pesquisa de atendimento em Psicoterapia Breve de Casais e/ou Famílias, de Orientação Psicanalítica, desenvolvido na clínica-escola do Instituto de Psicologia da USP, de acordo com Gomes (1998).

Agradecimento especial a Daniela Castelan, estagiária da graduação do IPUSP, que atendeu o caso clinico.

 

[2] Departamento de Psicologia Clinica do Instituto de Psicologia da USP.

 

[3] Embora o autor já tivesse feito referências anteriores ao termo na “Interpretação dos Sonhos” (1900) e sobre os “Chistes” (1905).

[4] A mudança de sexo do terapeuta foi aleatória, seguindo os trâmites institucionais, ou seja, quando optaram por uma terapia de casal foram encaminhados a um outro estagiário disponível, que naquele momento era uma mulher.

 

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