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07 / 01 / 2013 Afinal, o que é ser adulto?


Afinal, o que é ser adulto?
José Outeiral
ação

Não é fácil, em nossos dias, descrever o que é ser adulto. A complexidade, a diversidade e as singularidades da cultura contemporânea nos revelam diferentes manifestações do ser adulto. É necessário referir, de início, que encontraremos várias "fases" nessa etapa da vida, particularmente quando a expectativa média de vida passou de 35 anos, na década de trinta do século passado, em nosso país, para mais de 70 anos, na passagem para o novo século. Poderá, por outro lado, ser interessante fazer um breve percurso histórico, com a ajuda do clássico Tratado de Psiquiatria, de H. Kaplan e B. Sadock, em particular o capítulo Idade Adulta, de Calvin Colarusso. Deixo ao leitor a ressalva de que embora os tratados de psiquiatria não me pareçam os melhores parâmetros para se definir o que é ser adulto, pois estamos falando de normalidade, temos de começar por algum lado e, sendo médico, prefiro partir, neste caso, de um terreno conhecido. O trabalho de Calvin Colarusso inicia com uma abordagem histórica. Ele registra:

"(...) Os pensamentos sobre o ciclo vital são tão antigos quanto os registros da história. Por exemplo, o estadista e poeta grego Sólon (639-599 a.C.) descreveu seis fases da vida adulta e determinou tarefas evolutivas para cada uma delas, como o desenvolvimento de habilidades do indivíduo para a mais plena e maior virtude. Mais tarde, Confúcio (aproximadamente 551-479 a.C.) descreveu o ciclo da vida em termos de aspectos relacionados com a idade, como o empenhar-se de corpo e alma para aprender aos 15 anos, plantar os pés em solo firme aos 30, conhecer os desígnios do céu aos 50 e os ditames do coração aos 60. Esta ideia de contínua mudança ao longo do desenvolvimento também se expressa na busca de Confúcio pelo autoconhecimento. Temas similares são vistos nas prescrições talmúdicas para os estágios sucessivos da maturação da fé e na busca da salvação cristã (...)." 

Num país como o Brasil, temos de pensar que convivemos com o pós-moderno em um país que nem bem é moderno. Assim, estou escrevendo sobre os estratos sociais e culturais mais favorecidos, dos espaços urbanos modernos e com acesso à educação, saúde e emprego. Nas classes sociais marginalizadas encontramos situações diversas como, por exemplo, as avós cuidando sozinhas dos netos, pois o avô não está há muito em casa, e os pais das crianças, adolescentes ainda, estão nas ruas. A passagem da infância ao mundo adulto, nesses espaços, é muito rápida.

A Transição da Adolescência ao Mundo Adulto

O final da adolescência apresenta tarefas específicas:

A primeira delas diz respeito ao estabelecimento de novas relações com os pais: relações de maior independência e de menor idealização. O bebê humano é aquele que nasce em maior estado de desamparo (físico e psíquico) dentre todos os mamíferos. Na infância, em função de nossas fragilidades e inseguranças, necessitamos de pais idealizados e fantasiados como muito "poderosos" – assim nos sentimos protegidos. Desenvolvemos fortes vínculos de dependência, dependência esta proporcional às nossas ansiedades: à medida que vamos ingressando nas etapas finais da adolescência as relações com nossos pais mudam. Os vínculos serão de menor dependência emocional e material e de menor idealização. A des-idealização dos pais, quando os aceitamos como "seres comuns", como nós, com suas dificuldades e limitações, é um marco importante neste processo.

 

A segunda tarefa se refere às questões ligadas às atividades profissionais. Devemos estabelecer uma diferença entre vocação e escolha profissional. Vocação é um conjunto de habilidades inatas que o ambiente identifica e, eventualmente, trata de desenvolver. A escolha profissional diz respeito a fatores econômicos e sociais, ao mercado profissional numa determinada época e lugar. As possibilidades profissionais estão, hoje, bastante difíceis para os jovens e eles buscam postergar o ingresso no mercado de trabalho. Eles permanecerão, então, bastante tempo morando na casa de seus pais depois da adolescência cronológica. Ocasionalmente levarão muito tempo até que possam ter, por sua própria conta, as mesmas facilidades e benesses que têm na casa dos pais.

 

A terceira tarefa se refere à aceitação do novo corpo, corpo que vai se fazendo, inexoravelmente, adulto, muito na dependência da hereditariedade e também por parte da cultura e do ambiente. Quando crianças, a imagem do corpo que teremos quando adultos é geralmente idealizada, pautada pelos padrões estéticos da época (da forma em excesso da "maja desnuda" de Goya, nos quinhentos, até a esquálida Twygi dos anos sessenta do século XIX). À medida que o tempo passa vamos tendo um corpo "real", não fantasiado, determinado pela genética, o que, invariavelmente, comporta uma ferida narcísica. A aceitação do corpo adulto não é uma tarefa simples.

 

 

Certamente a protelação do ingresso na vida "adulta" por parte dos adolescentes se deve a vários fatores além dos que referi. Aspectos culturais e econômicos são importantes. A valorização excessiva do estilo de vida adolescente e a estetização dessa etapa como símbolo de beleza são elementos que contribuem para que a adolescência se prolongue. No livro Um glossário para os anos 90, David Rowan define o termo "Adultescente" da seguinte forma: "pessoa imbuída de cultura jovem, mas com idade suficiente para não o ser. Geralmente entre os 35 e 45 anos, os adultescentes não conseguem aceitar o fato de estarem deixando de ser jovens." No mundo contemporâneo, ocidental e urbano, particularmente nas classes sociais mais favorecidas, "ser" ou "parecer ser" um adolescente é um objetivo de muitos indivíduos em idade para serem adultos.

É cada vez maior o número de adultos que permanecem na casa dos pais. Na Europa chega a cerca de 20% a percentagem de maiores de trinta anos que permanecem em seus lares de origem. Frank Furedi escreve que no Japão 70% das solteiras de 30 a 35 anos que trabalham vivem com os pais e que o número de filhos adultos que residem com os pais nos Estados Unidos vem subindo constantemente: 18 milhões de jovens na faixa de 20 a 34 anos vivem com os pais, o que representa 38% dos adultos solteiros jovens. Este autor não considera correto enfatizar que esta situação se deve, exclusivamente, a fatores econômicos e escreve que:

"... no Japão, onde a tendência é mais desenvolvida, frequentemente se comenta a riqueza relativa dos jovens solteiros de 20 a 34 anos que ainda vivem na casa dos pais. É fato largamente reconhecido que o boom recente na venda de produtos de luxo vem sendo movido pelo consumo conspícuo dos solteiros parasitas, muitos dos quais vivem com os pais... Nos Estados Unidos as empresas têm como alvo justamente o mercado dos filhos-bumerangue, já que esses consumidores são vistos como possuindo uma renda disponível muito alta. A insegurança econômica pode ajudar a explicar por que alguns filhos crescidos ainda vivem com seus pais, mas não ajuda muito a lançar luz sobre o processo como um todo." 

No Brasil algumas estimativas apontam que, nas classes médias, os jovens deixam a casa dos pais em torno de cinco anos depois do período em que seus pais deixaram a casa paterna. A condição econômica é, certamente, um fator, onde o ingresso no mercado de trabalho, como sabemos, é bastante difícil para os jovens. Nas classes sociais menos favorecidas, entretanto, os jovens deixam a casa dos pais mais cedo. São inúmeros os fatores a serem considerados.

Em julho de 2001 um estudo encomendado pela Abbey National confirmou a descoberta e indicou que a proporção de adultos jovens que retornam para a casa dos pais depois de uma fase inicial longe dela quase dobrou, de 25%, em 1950, para 46%, hoje. Uma pesquisa encomendada pela BTopenworld em 2002 concluiu que 27% dos jovens que deixam a casa dos pais pela primeira vez voltam pelo menos uma vez, e que "um em cada dez jovens recém-independentes volta a viver na casa dos pais até quatro vezes até saírem de casa de maneira definitiva".

Uma questão que tenho levado aos pais e professores é a importância da existência do papel (ou função) do "adulto" na família e na escola. O adulto assume responsabilidades, cuida e protege, serve de exemplo e estabelece limites para que as crianças e adolescentes possam se desenvolver sadiamente. Os adultos são os responsáveis pelo nascimento psíquico das crianças e adolescentes através da tradição (transmissão da cultura) e da autoridade.

Referências

CARDOSO, M. (org). Adolescentes. São Paulo: Escuta, 2006.

HAAG, C. A pedra no meio do caminho ou de como a adolescência "engoliu" os adultos do planeta". Pesquisa FAPESP, 133, março de 2007.

OUTEIRAL, J. Adolescer. Rio de Janeiro: Revinter, 2007.

 

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